My beautiful broken brain

A minha grande dificuldade neste momento é perceber a diferença entre o que são maleitas do surto que tive – e que não recuperei – do que são possíveis sinais de surto. E isso infelizmente deixa-me mais vezes do que o desejado em alerta.

Quando me levanto  parece que estou com os copos. Faço o corredor até à casa de banho agarrada às paredes e parece que levo uma eternidade a acordar de facto.

Nesse momento sinto quanse sem excepção uma tristeza ao mesmo tempo que medo. Será um surto? Quando me convenço que não é, fico desanimada por perceber que das maleitas com que fiquei esta é provavelmente uma delas.

Sento-me na varanda a tomar um café e faço o exercício de olhar para a árvore em frente.

Lembro-me bem dos meses que se seguiram ao meu internamento e de como era difícil ver a árvore. Parecia sempre desfocada. Aproveito e tento medir se o que vejo agora é diferente ou não.

É muito difícil explicar estes sintomas. Tanto quanto é difícil compreendê-los. Sinto-me a maior parte das vezes a viver num barco. O mundo está sempre a oscilar. Não há melhor definição do que esta – da qual não sou autora -, sinto-me a viver num filme do David Lynch. (*)

Neste documentário, que adorei, fala-se de uma doença que não é a minha mas explicam-se os sintomas, que são semelhantes, como eu própria que os vivos não consigo explicar. E é isto: passei a viver num filme de David Lynch.

E se há dias em que não dou importância aos sintomas e vivo bem, há dias que não. Há dias em que me deixo ser agarrada por eles, em que sinto tristeza e falta de coragem.

Felizmente esses dias são em menor quantidade do que os outros. Porque aprendemos a viver com quase tudo e também eu vou aprendendo a viver com isto. As maleitas fisícas são o que menos chateia. É a cabeça que me deixa sem chão.

Sinto muitas vezes pressão na cabeça e é nessas alturas que me sinto em pânico.

Uma das grandes dificuldades desta doença é compreender o seu modus operandi. Assim se vê que nem a medicina tenha resposta para nós.

Para já só encontro uma saída: gostar do meu cérebro tal qual ele é. Com estes desafios. E dar-lhe tudo o que esteja ao meu alcance para que a vida corra bem. Para ele e para mim.

Há dias em que o meu lindo e fragmentado cérebro me desafia mais do que seria desejado. Mas é o meu cérebro. Meu. Com tudo o que isso tenha incluído.

(*) My Beautiful Broken Brain

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